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À Luz dos Olhos Teus


À Luz dos Olhos Teus

“Os olhos são janelas da Alma”, vivia repetindo mamãe.

Adorava iniciar um assunto com essa frase, quando procurava ressaltar a importância de sabermos reconhecer o real valor em alguém. Dizia “para conhecer a Verdade de uma pessoa, olhe profundamente em seus olhos!”.

Confesso que a timidez sempre foi o meu forte, o que me dificultava levar a cabo esse conselho de mamãe. Por outro lado, sempre admirei aqueles que exalavam tal sensibilidade à luz de um olhar, misto de ousadia e delicadeza, de temperança e determinação.

Dentre as pessoas que conheci, donas de tal habilidade instituída de natural intuição, resgato à memória o semblante de um jovem sócio do Clube Internacional de Regatas, a que poucos se referiam pela alcunha de Guto.

Sua presença sempre era notada nas dependência do clube. Mais do que pela altura e voz potente, o que despertava a atenção em Guto era seu olhar atencioso, sorriso cativante, e educação de fino trato que dedicava não só aos amigos, mas a todos que lhe dirigiam a palavra. Bastava uma gentileza para a pessoa ser acolhida no universo particular de Guto. Bastava um início de conversa para ouvir em resposta “Tá tudo óóóótimo!”.

Por isso, Guto era amado e respeitado por todos que o conheciam. Transparente em pensamentos, de fácil leitura nas intenções e clareza cirúrgica nas opiniões.

Pragmático e propositivo, Guto sempre projetava em sua visão de mundo o otimismo, a positividade e a assertividade. Dono de um poder criativo latente, transgredia pelo tempo o espaço a se debruçar em novas ideias, projetos, caminhos, sempre perseguindo o novo e o intuitivo.

Tal sensibilidade o presenteou com a mais autêntica de todas as manifestações: o ato de doação, aquele conduzido pelo Amor. E que o acompanhou pela Vida ao dedicar atenção, pensamentos, e sentimentos à sua amada Jussara. Um amor imponente e onipresente que os envolveu desde a primeira troca de olhares, ainda na adolescência. Almas gêmeas que se magnetizaram através das janelas da Alma, e perpetuaram no casamento a cumplicidade incondicional perseguida pelos poetas.

Guto e Jussara, um pacto de Amor & Doação que se estendeu às estruturas do Clube Internacional de Regatas. E nesse espaço Guto, pouco conhecido pela alcunha, deixaria um legado de inspiração e resiliência através de seu nome de batismo: José Augusto Cintra Mathias.

Associado desde os sete anos de idade, Cintra conquistaria seu próprio título em 1977, aos quinze; presente de seu pai, José Mathias.

Desde a adolescência praticava tênis, não com o objetivo de se tornar atleta de competições, mas como desculpa para se reunir com os amigos, e ali se entregar a divertidos momentos de pura recreação.

Para Cintra, o clube era sua casa, sua meia vida. Seu olhar diferenciado, agregador e multiplicador encontrou terreno fértil na atmosfera clubística do Vermelhinho da Ponta da Praia. Cintra buscava ângulos e enquadramentos diferenciados, sua atenção estava sempre à luz de possíveis caminhos a projetar o Internacional de Regatas como associação de destaque no cenário regional, enaltecendo o privilégio de ser associado de tal agremiação.

Essa história de amor e cumplicidade atinge sua maturidade em 1990, quando José Augusto Cintra Mathias é convidado a fazer parte do Conselho Deliberativo do Clube Internacional de Regatas, posto que sempre representou com muita propriedade, a ponto de integrar o quadro de Conselheiros Natos a partir de 2011.

Cintra logo chamou a atenção dos conselheiros mais velhos e experientes, pelo seu poder de argumentação, simplicidade de ideias e clareza de opinião. Experiente e talentoso profissional na área de Tecnologia de Informação e Comunicação na Refinaria Presidente Bernardes – Cubatão, da Petrobras, seu perfil profissional fomentava ainda mais a metodologia e visão assertiva que levava para a vida.

Passou-se a década de noventa e Cintra, assim como outros contemporâneos de uma nova geração de autênticos Vermelhinhos – Vidal Sion Neto e Wallace Paiva Martins Junior, para citar alguns –, seguiam no aprendizado de neófitos pela trilha da política clubística, testemunhas oculares de sucessivas Diretorias que atravessaram a década em busca de êxito em suas gestões, capitaneadas pelos presidentes Renato Ney Sertek, José Ivanoe de Freitas Julião, e Pedro Martins.

Na década de 2000, já experientes no entendimento do modo operandi e peculiaridades do clube, seguiram por caminhos internos distintos, assumindo, cada qual em seu tempo, cargos de extrema responsabilidade e confiança. No caso de Cintra, foi convidado para ser diretor administrativo da gestão de Marcelo Luiz Maraucci.

A atuação de Cintra nessa gestão, e principalmente seus posicionamentos frente a situações delicadas que envolveram o período, chamaram novamente a atenção de conselheiros que integravam o Movimento Responsável, composto por um grupo de sócios dedicados a retomar o crescimento do clube Internacional de Regatas.

Para capitanear esse novo ciclo de crescimento, o Movimento Responsável decidiu pelo nome de Raphael Sergio Rodrigues Martins, um sócio mais antigo, desportista do clube e com um jeito mais tradicional de se relacionar com o associado. De forma visionária indicaram Cintra para vice-presidente, o que muito ajudaria Raphael na condução de seu mandato, pelo perfil agregador e de fácil relacionamento com os associados.

O sucesso desse modelo de gestão clubística rendeu mais um mandato à dupla de associados, proporcionando a Cintra a construção de forte relação de confiança com a egrégora política do clube. Além disso, dado o seu perfil desbravador e proativo, fortaleceu em muito a administração de Raphael, pelo excelente relacionamento com os integrantes da Diretoria Executiva.

Inserido no contexto do clube e tendo atuado como conselheiro, diretor e vice-presidente, o olhar dos integrantes do Movimento Responsável, coordenado por Ronald Monteiro – verdadeiro alquimista na ciência da política clubística -, conduziu Cintra para o cargo máximo de uma agremiação clubística: o de presidente do Clube Internacional de Regatas.

Foram dois mandatos repletos de obras, todas conduzidas sob à Luz do olhar de Cintra, formando uma dupla bem entrosada com seu amigo e vice, Vidal Sion Neto – nome fundamental, inclusive na tomada de decisão de Cintra para aceitar enorme responsabilidade. Sob a égide deles, inúmeras obras finalizadas, tantos outros projetos tomaram forma e foram executados.

A começar pela herança da gestão de Raphael – a construção do Salão Panorâmico – que a todo custo tentou finalizar a obra em sua gestão, E teria levado a cabo, se dificuldades e situações adversas que surgiam frente a tão imponente obra, não tivessem impactado o cronograma.

O fato é que nessas duas gestões não foram poucas as obras e reformas ao qual o clube Internacional de Regatas foi submetido: além da entrega do Salão Panorâmico, a troca de todo o sistema hidráulico da piscina semiolímpica, além de um vazamento detectado em seu interior, restaurada por empresa especializada.

Outra grande reforma foi a da infraestrutura subterrânea, na parte hidráulica e rede de esgoto, com troca de todo o piso do clube, inclusive restaurante, bar e banheiros. Algo que não aparece aos olhos dos associados antes e depois da execução, mas é sentida diariamente por conta dos percalços e incômodos que uma obra desse porte e importância solicita. Para o olhar de Cintra, era uma obra fundamental, daquelas que duram décadas. E assim foi executada, etapa por etapa, entrega por entrega.

Mas também foram gestões que agitaram a vida social do clube, com muitas festas e eventos, estreitando ainda mais a relação afetiva entre associados e o Clube Internacional de Regatas. E como Cintra foi um presidente que vivia muito nas áreas sociais do clube, estava sempre acessível para uma conversa, sempre solícito às reinvindicações dos sócios, pois os ouvia, ponderava com suas opiniões, e se aprofundava nas reclamações, sempre em busca de caminhos para atender aos associados.

Após duas gestões como presidente do Internacional de Regatas, Cintra seguiu em sua cruzada pela melhora contínua do clube. Com o falecimento de Ronald Monteiro, Vidal Sion Neto convidou Cintra para coordenar o Movimento Responsável, o que fez com extrema competência, agregando sempre nas conversa, encontros, e sugestões.

Sua última gestão dedicada ao clube foi no biênio 2019-2020, quando assumiu o cargo de presidente do Conselho Deliberativo e, como de costume, o exerceu com esmero e extrema dedicação.

Seja pela lente de associado, conselheiro, diretor, presidente da Diretoria Executiva e do Conselho Deliberativo, ou coordenador do Movimento Responsável, Cintra sempre investiu o melhor de si, seja pela racionalidade de um profissional de TI, seja pelo emocional de um homem apaixonado pela Vida.

Cintra nos deixou na madrugada silenciosa do dia nove de agosto de 2022.

Descansou, após enfrentar todas as batalhas que a Vida lhe desafiou, todos os obstáculos que o dia a dia lhe apontou, todas as esperanças que o seu olhar antecipou. Mas nos deixou a leveza de Guto, e seu legado de Amor, positividade e empatia, sempre a olhar o lado bom e prático da Vida. Lembrar de Cintra é nos tornar queridos, tocados pela simplicidade de se doar. É vislumbrar em cada tijolo, ladrilho, risco de quadra do clube, um pulsar do seu legado.

E à amada Jussara, tão refletida à Luz de seus olhos, imprimo uma mensagem de carinho e estima, que tomo emprestada de Mário Quintana, como se cada verso se transmutasse num suspiro de Guto:

“Quando eu for, um dia desses

Poeira ou folha levada

No vento da madrugada

Serei um pouco do nada

Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar

Pareça mais um olhar

Suave mistério amoroso

Cidade de meu andar

(desde já, tão longo andar)

E talvez de meu repouso”

 

(José Augusto Cintra Mathias, 22/09/1962 – 09/08/2022)