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A Saudade em Pedacinhos Coloridos


A Saudade em Pedacinhos Coloridos

 

O mês de fevereiro sempre foi muito especial na casa de meus pais. Um mês extremamente alegre, que trazia com ele a festa mais popular do nosso país: o carnaval.

Em minha memória afetiva há um armário sensorial em que armazeno cheiros e sabores especiais. É de lá que acesso o aroma de papel barato e colorido das confetes e serpentinas, que passeavam deliciosamente pela atmosfera do salão, num mergulho de alegria até o piso do ginásio do Clube Internacional de Regatas. Misturado a esse aroma, o sabor dos refrescantes guaranás que papai sempre comprava para mm, quando me levava para me divertir nas matinés que lotavam o local.

Muitos foram os carnavais de salão marcantes no Internacional. Gerações e gerações se deleitaram, mergulhados na alegria esfuziante que envolvia a todos.

Mas mamãe, a mais carnavalesca de todas as mulheres que já conheci, reservava em suas lembranças o que para ela foi o maior de todos os carnavais de salão que o Clube Internacional de Regatas proporcionou a seus associados: os inesquecíveis bailes de 1955.

Segundo mamãe, naquele ano o Conselho Municipal de Turismo, com o apoio o prefeito municipal, oficializou os festejos de rua e executou esplêndida programação comemorativa. O povo correspondeu ao chamado, ocupando cada centímetro das calçadas do Gonzaga, acompanhando com euforia o desfile dos carros alegóricos e a passagem dos ranchos e blocos, que surpreenderam pelo apuro das fantasias carnavalescas desfiladas.

Mamãe sempre ressaltava em conversas com as amigas, regadas a chá e biscoitos amanteigados, que se o carnaval de rua já empolgava pelo senso de organização e surpreendente conteúdo de arte, não seria menos brilhante o carnaval nos salões, onde reinaram a animação, alegria, harmonia e ordem.

E o Clube Internacional de Regatas seria eleito, pelo consenso geral, tanto de crítica quanto de público, como a maior manifestação carnavalesca dos salões de Santos. A temática do ano de 1955, “Carnaval em Marte”, atraiu em particular uma estrela de primeira grandeza, não de origem intergaláctica, mas de linhagem hollywoodiana, fato este um dos mais impactantes na memória afetiva de minha saudosa mãe. Sobre isso, comento melhor daqui a pouco.

O fato é que, naquele ano, papai foi um dos associados que aderiu ao Bloco dos Palhaços Vermelhinhos, cujas harmoniosas evoluções causaram forte impressão em todos que ali estavam. Entre esses foliões, o prefeito Dr. Antonio Feliciano que fez questão – como comentei há pouco – de oficializar o carnaval santista, além de participar da alegria contagiante que envolveu a todos os sócios do clube, comandada pelas melodias e músicas carnavalescas executadas pela Orquestra de Orlando Ferri, que chegavam fresquinhas, direto do Rio de Janeiro, compostas por Lamartine Babo: “O Teu Cabelo Não Nega”, “Linda Morena”, “Rasguei Minha Fantasia”. Com elas também aportava no palco a música “Maria Escandalosa”, sucesso na voz de Dalva de Oliveira, conhecida como “Rouxinol Brasileiro”, nossa eterna “Rainha do Rádio”.

O ginásio, artisticamente decorado, comparado ao Municipal do Rio de Janeiro, assim revelado por muitos dos convidados visitantes, nunca esteve tão cheio. Cheio, não; mamãe enaltecia que ele estava superlotado, intransitável.

Em meio a tanta alegria, mamãe lembrava quando um burburinho tomou conta do baile, cabeças se erguendo na mesma direção; gritinhos femininos de surpresa, suspiros masculinos de admiração: acabara de entrar no salão uma glamourosa atriz, é o que parecia.

A movimentação de um pequeno séquito atravessou parte do salão, abrindo picada em meio aos foliões curiosos e palmas que ovacionavam tal personalidade.

Mamãe forçava o olhar da mesa de onde estava – decidiu deixar os óculos em casa, para não borrar a sua maquiagem de Colombina – mas não conseguia identificar tal pessoa.

Mas esse mistério durou pouco tempo, pois o séquito se dirigiu até a mesa ao lado da que estavam, além de mamãe e papai, os queridos Nelson Serra, Ramiro Bezerra da Rocha, Alberto Spinelli, e suas respectivas esposas.

Foi então que mamãe reteve em suspenso a respiração, não acreditando quem ali se postava e, de forma terna e educada, cumprimentava um a um na mesa: a atriz de Hollywood Janet Gaynor, acompanhada de seu belo marido Adrian, famoso figurinista do primeiro time das estrelas de cinema.

E aqui cabe revelar um segredo que mamãe guardava de todos, pelo menos até aquela noite: ela era fã incondicional de Laura Augusta Gaynor, que escolheu o nome artístico Janet Gaynor para brilhar nas telas dos cinemas. Uma mulher talentosa que, em 1929, foi a primeira vencedora do Oscar de melhor atriz, concorrendo em três filmes: “Aurora”, “O Anjo da Ruas”, e “Sétimo Céu”, filme que lhe rendeu a estatueta mais cobiçada do planeta. Aliás, foi a única vez na história do Oscar que uma atriz disputou uma categoria concorrendo com três personagens e filmes distintos. Mas o que fez mamãe tecer elogios e admiração por Janet Gaynor foi o papel que rendeu à Lolly – apelido carinhosamente dado a Janet Gaynor pelos fãs – uma nova indicação ao Oscar de melhor atriz, em 1937, ao interpretar a personagem Esther Blodgett, na primeira versão do filme “Nasce uma Estrela”, perdendo o Oscar para Luise Rainer, no papel da escrava Olan em “Terra dos Deuses”.

Pois foi exatamente com essa excepcional estrela que, por alguns momentos, mamãe trocou palavras e confidências, assunto transformado em personagem principal no encontro pós-carnaval, reservado às amigas de mamãe, em nossa casa.

O fato é que a presença de Janet veio apenas coroar algo extremamente grandioso, de uma energia esfuziante, muito bem representado numa crônica que foi ao ar no dia 24 de fevereiro de 1955, num dos maiores programas de rádio do país: “Conversa ao Meio Dia”, transmitido pela Rádio Nacional de São Paulo, e comandando pelo saudoso Walter Forster. Crônica esta narrada pelo locutor Clímaco César:

“Decididamente, não temos jeito para essas coisas relativas ao carnaval. Podemos dizer mais: não gostamos do carnaval, E dois motivos principais influem para que exista essa espécie de ojeriza, de quase alergia: primeiro motivo, essa coisa que nos inibe os movimentos, que nos prende os pés, que nos amarra à cadeira, que muitos classificam como timidez ou complexo, e outros taxam de orgulho. Segundo motivo: somos da opinião que, nos dias atuais, quem se arrisca a entrar na folia está sujeito a comprar barulho, a ficar de olho roxo, a amanhecer no xadrez. Os folguedos de carnaval, em nossa opinião, já se desvirtuaram muito. Antes pensava-se apenas em “brincar”, enquanto que, agora, só se pensa em “aproveitar”. Daí a nossa decisão: iríamos sair de São Paulo tomar alguns banhos de sol e de mar, lá na Praia Grande, retemperando um pouquinho as forças, comendo algumas dúzias de ostras, a fim de dar fosfato ao nosso cérebro cansado. A intenção foi essa. Apenas essa. Nada de cordões, nada de corso, nada de bailes. Apenas descanso. Mas, costuma-se dizer “o home põe e Deus dispõe”, e com a gente o conceito pode ser aplicado. Isso mesmo, fomos para descansar, e pulamos um tempão enorme. De um momento para o outro, começamos a mudar de opinião, a achar o carnaval uma coisa de outro mundo, gostoso para chuchu. E querem saber por que? Por isto: encontramos na terra de Braz Cubas um clube que pode ser apontado como verdadeiro exemplo. Ali, a par de uma alegria contagiante, podemos encontrar algo que de há muito julgamos haver desaparecido. Decência, respeito ao próximo, cavalheirismo, correção. Podia-se brincar, sem receio algum, porque o ambiente assim o permitia. O constrangimento nos abandonou; a timidez ou o orgulho, como queiram, sumiram como que por encanto. E entramos no cordão, pulamos, cantamos “Tem Nego Bêbo Aí”, “Maria Escandalosa”, “Sapato de Pobre”, e tudo quanto foi sucesso. Uma coisa realmente gostosa. Hoje, quando o tríduo terminou, e estamos de volta ao nosso trabalho, ainda sentimos saudade daquelas horas inesquecíveis. Sentimos saudades do presidente Nelson Serra, tão pródigo em gentilezas para conosco. Saudade do Clube Internacional de Regatas, que é a sociedade ao qual nos referimos; saudades, pela primeira vez na vida, dos folguedos de carnaval. Nosso consolo e que deixamos ali amigos. Bons amigos, e que as portas do Internacional nos foram abertas. É uma grande coisa, sem dúvida. Grande coisa a gente chegar à conclusão de que, apesar de todo o pessimismo, ainda se pode brincar; ainda se pode observar educação, a par de uma alegria sã. Não descansamos em Santos. Ao contrário: voltamos de lá com o corpo todo doído, de tanto pular nos salões do Internacional. Mas que valeu a pena, isso valeu. E já estamos contando na folhinha os dias que faltam para o carnaval de 56, desejosos e voltarmos aquele ambiente amigo, cordial, alegre, proporcionado pela sociedade santista, presente aos bailes do Clube Internacional de Regatas. Não poderiam ter sido melhores os dias em que estivemos afastados das atividades radiofônicas. Dias inesquecíveis, graças unicamente às atenções e ao carinho com que fomos tratados por essa admirável gente santista, a quem traduzimos toda a nossa admiração, através dessas simples palavras: Muito obrigado”.

O carnaval de 1955 concretizou um importante marco na história do nosso amado clube: a de ser o protagonista na organização e condução dos principais eventos, não só sociais como também desportivos, da Baixada Santista e Estado de São Paulo.

Como em seus bailes carnavalescos que, ano a ano, desfilavam criatividade em temáticas e sofisticação na decoração, a ponto de ser aclamado em 1958, pela TV Tupi, através do programa “Os Melhores da Semana”, como o melhor Carnaval de salão de todo o estado de São Paulo.

Os anos foram avançando e acredito que muitos dos associados que atravessaram as épocas com o clube devem se lembrar de memoráveis bailes carnavalescos, como os das temáticas “Carnaval das Galáxias”, “Maravilhas da Natureza”, “Folias de Momo no Balão Mágico”, “O Mundo Maravilhoso do Circo”, “No Reino dos Mandarins”, e tantos outros, inesquecíveis.

Bailes que atraiam cada vez mais a elite paulistana, por sua primordial característica, a de ambiente totalmente familiar, e repleto de alegria sã. Era comum encontrar nesses bailes artistas ligados ao rádio e TV, como Lolita Rodrigues, Airton Rodrigues, Walter Forster, Branca Ribeiro, Hebe Camargo, e muitos outros.

Como o querido Carlos Alberto Hernandez disse uma vez, “para o progresso de uma agremiação como o Clube Internacional, de Regatas, é óbvio que não basta o religiosos comparecimento, por parte dos sócios, à sede social, e a boa vontade e trabalho, por parte dos diretores, no desdobramento do programa de atividades a que se propuseram. É necessário também, e imprescindível, até, que exista perfeito entrosamento entre ambos, com identidade absoluta ou, pelo menos, conhecimento, do objetivo comum”.

Esse sentimento recíproco era percebido por qualquer convidado, e sua força motriz seduzia a atenção e admiração por nossas festas.

Não é à toa que o lendário radialista Walter Forster se apaixonou por nossa forma de tratar o carnaval em sua essência anímica, convertendo sua aversão a essa festa popular em entusiasmo e ansiedade pela chegada dessa época.

Até imagino o saudoso Walter se entregando aos versos compostos por David Nasser e Jota Júnior, para a música “Confete”:

 

“Confete

Pedacinho colorido de saudade

Ai, ai, ai, ai

(…)

Confete

Confesso que chorei

Chorei porque lembrei

Do carnaval que passou

(…)

Ai, ai, confete

Saudade do amor que se acabou”

 

Saudade essa, de Walter Forster, que duraria a distância exata até o próximo carnaval.

Saudações Vermelhinhas!