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Pompa e Circunstância


Pompa e Circunstância

 

O bom de viver desde meus primeiros dias num clube é de que conheci muitas pessoas incríveis. Não só pela ligação histórica de minha família com as origens do Vermelhinho, mas também pelo envolvimento que meus pais tinham com o cotidiano do clube. Muitas das famílias se frequentavam, muitos casamentos surgiram dessa constante convivência entre sobrenomes.

 

E claro, muitas histórias e causos que eram dedilhados em deliciosas conversas que aconteciam na sala de estar de nossa casa, ou às sombras das copas de nossas imponentes árvores que estão distribuídas por nossa sede social.

 

Lembro de várias dessas conversas que se iniciavam em debates e, por vezes, desaguavam em pequenos, mas educados embates de ideias e propostas sobre o rumo do nosso amado clube. Em uma delas, conversando animadamente sobre os clubes da região, uma das pessoas sentada à mesa, e da qual não me recordo quem foi, comentou que durante muito tempo, a maioria das agremiações e clubes esportivos tiveram um único objetivo: competir nas raias e quadras, na força, na raça. Havia as domingueiras, as festas de debutantes ou confraternizações, e carnaval, mas que se esgotavam nos últimos acordes da orquestra, sem uma preocupação maior de promover o homem no seu todo.

 

Mas, segundo os próprios queridos Carlos Varella Lamberti, José Volpe, Fernando Paiva e João Malatesta, ex-presidentes do Clube Internacional de Regatas, essa mentalidade havia mudado na década de setenta, quando a maioria dos clubes procuravam levar aos seus associados as mais variadas manifestações culturais, como exposições, palestras, shows musicais e montagens teatrais. Com esse novo tipo de oferta, os clubes passaram a ser mais frequentados pelos sócios, e também por não-sócios, pela oportunidade de não só assistirem a espetáculos conceituados, mas também com a possibilidade de fazerem parte da família Vermelhinha, em franca expansão.

 

Como não poderia ser diferente, o Clube Internacional de Regatas deu um passo à frente, em sua natural vocação de vanguarda. Motivo dessa crônica a qual me dedico hoje.

Dias desses, acessei o clube pela entrada social que fica quase na esquina da Rua Francisco Hayden com a Avenida Almirante Saldanha da Gama. Portas de vidro temperado separam a curiosidade dos que por ali passam da grandiosidade espacial que o interior do local detém: a sua sede social, construída em dois pavimentos, com obras iniciadas em na gestão de José Volpe (1974 – 1976), e inaugurada no ano de 1978, na gestão de Fernando Paiva (1976 – 1978) .

 

Sem dúvida, uma belíssima sede, conforme divulgada na ocasião de sua inauguração: “O térreo, com aproximadamente 800 m2, as paredes revestidas em cerejeira e igual madeira de lei nas arcadas, formando quatro ambientes, todos com muito verde, pufes, sofás, peças de arte em bronze e mármore, além de quadros distribuídos pelas paredes, entre eles o de Armando Sendin e Luiz Hamen, que formam o primeiro ambiente, completado com um armário onde não faltam peças decorativas e uma escultura do fim do século XIX – “Retorno da Fonte”, de A. Befill.

 

No segundo ambiente, “Apoteose Vegetal”, um painel de Jorge Guerreiro, medindo 1,50 X 1,20 m, e mais uma peça de bronze, também do século XIX. Jean Louis, autor da decoração do clube, comentou na época que “eram dois troféus belíssimos, esculpidos em mármore de carrara e bronze, na França. Eu o desmontei, transformando-os em abajur. Porém, o que os tornam raro é que o artista, ao invés de esculpir dois anjos, optou por duas figuras femininas. O interessante é que em toda a Renascença, até o Modernismo, os anjos sempre foram pintados ou esculpidos sem determinação de sexo. Eram apenas anjos. Mas nesta peça as formas foram detalhadas, tornando-se uma incógnita para os pesquisadores. No passado, os troféus vinham da França e da Itália porque aqui não havia fabricantes Quem esculpia eram os alunos dos grandes mestres, que assim ganhavam para a subsistência”.

 

Os detalhes da grandiosidade que era absorvida pelo espaço, com toda pompa e circunstância, é revelado “logo no hall de entrada, em Vitrini, uma escultura moderna, onde Serafim Gonzalez se inspirou no mar, gaivotas, remos, âncoras e outros instrumentos de navegação para formar o emblema do Clube Internacional de Regatas, na cores azul, vermelha e branco.

 

No terceiro ambiente, entre arcadas, quatro murais de Luiz Garcia Jorge, dentro do cubismo. Feito em várias etapas, na primeira ele utilizou massa corrida, cola e gesso formando os altos e baixos relevos. Posteriormente, usou papel metálico prateado, para em seguida pintar dentro um degradê de cores, buscando não só profundidade, mas também o destaque para a temática. Finalmente, Luiz Garcia petrificou a obra, revestindo-a com parafina e acrílico.

 

No quarto ambiente sobressaia uma peça de arte em bronze, simbolizando a Paz, que também foi um troféu. Ainda no térreo, a galeria de troféus e um quadro do fim do século XIX com a bandeira do clube, datado de 1898.

 

No pavimento superior, além do bar executivo em linhas modernas, destaque para duas peças de arte: uma tapeçaria de Tereza Guerreiro, em azul e branco, e um piano de cauda. Para os amantes do jazz, uma bateria próxima ao piano, ambos disponíveis para os associados duas vezes por semana, às terças e quintas-feiras. Nesse mesmo pavimento, uma biblioteca com 240 m2, incluindo sala de leitura e galeria dos presidentes de diretoria e conselho deliberativo, além de plantas ornamentais.

 

Eu, no auge dos meus trinta anos, junto com amigas, me deliciei na noite de inauguração do complexo cultural, absorvendo atentamente todas as informações que eram relatadas discurso após discurso. No local, presentes, personalidades políticas e da sociedade santista, tudo com muita pompa e circunstância.

 

Entre tantas personalidades, ficou registrada em minha memória o brilho nos olhos dos nossos queridos, então diretores, o cultural Antoine Anis Lascani, e Jean Louis, que ficou com o recém criado Departamento Feminino. Ambos confraternizavam a ousada dinâmica envolvendo a relação entre esses dois setores: enquanto Lascani programava cursos, palestras, recitais, Jean Louis introduzia o método de dinâmica de grupo, o que proporcionava resultados imediatos. Segundo me confidenciou Louis, em um almoço na casa de papai, “não havia diretor no Departamento Feminino, para dar oportunidade a todas as associadas que desejassem realizar alguma coisa no sentido criativo”. Por isso, segundo ele “ficou convencionado que cada integrante do grupo pudesse apresentar um ou mais convidados ou convidadas semanalmente para falar sobre temas diversos, desde Educação até Artes, com debates no final”.

 

Ainda naquela noite de inauguração, foi projetada algumas das ideias para alavancar o espaço cultural, com o objetivo de torna-lo, com o tempo, referência na cidade. Entre os eventos previstos, uma exposição de artesanato, palestras e slides sobre o trabalho realizado nessa área. Segundo Jean Louis, “objetivando criar cursos nos mais diversos campos artesanais”. Ainda segundo Louis, “outra iniciativa é a criação de uma galeria de arte, que vai funcionar de forma permanente no andar térreo da sede nova, junto à Galeria de Troféus.

 

Por outro lado, Antoine Anis Lascani deixava claro que o seu trabalho seria dedicado a promover outras formas de Artes junto aos associados. Lembro que havia me confidenciado que estava entrando em contato com vários empresários teatrais, para trazer peças que estavam atualmente em cartaz na capital paulista, além de se mostrar entusiasmado por preparar o Festival Gibran, em homenagem ao autor do best seller “O Profeta”. Na época me disse que “o festival inclui palestras, projeção de filmes e exposição de quadros de Gibran, que atualmente se encontram no Rio de Janeiro”. Para aqueles que não se lembram ou não sabem, Gibran Khalil Gibran, também conhecido como Khalil Gibran foi um ensaista, prosador, poeta, conferencista e pintor de origem libanesa, conhecido mundialmente pelo livro que mencionei acima.

 

Finalizando o evento, Antoine Lascani ressaltou em sua agenda cultural a criação dos Jogos Florais, promovendo um concurso de trovas, abrangendo Brasil, Portugal, Angola e Moçambique, com a duração de seis meses, além de palestras e conferências.

 

Após essa noite apoteótica para pessoas que, como eu, sentem os versos de um poema ou a melodia de uma canção pulsarem na alma, ficou o sabor de uma conquista: a de pertencer a um clube completo, que passava a dar a mesma importância entre um título conquistado com suor em uma quadra e um suspiro ecoado na coxia de um palco.

 

Saudações Vermelhinhas!