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Quando a Festa até parece uma Vida


Quando a Festa até parece uma Vida

 

Já cantaram que às vezes a Vida até parece uma festa.

Pois para mim, viver o Clube Internacional de Regatas  é estar em constante sintonia com o lado bom da Vida, com a leveza que ele me promove diariamente, ao me tocar em pequenos e simples movimentos: uma brisa a bater no rosto enquanto aproveito as manhãs ensolaradas à beira da piscina, o aconchego relaxante em minhas passagens pelas termas da sauna, pelo contemplar de festivos grupos de crianças no ir e vir em busca de aventuras pelas dependências do clube.

Nesses momentos de pura contemplação, revisito minhas memórias afetivas, encontrando nelas pequenos flashes emocionais. Dia desses, me veio uma passagem singela, mas marcante.

Lá pela década de 70, havia dois irmãos gêmeos – William e Wallace Paiva Martins – conhecidos no clube não só como Conselheiros, mas desde sempre como “Os Reizinhos do Campo”, por desfilarem suas técnicas e habilidades em nossa Arena Interbol, para o deleite de torcedores Vermelhinhos, nos amistosos e torneios internos que movimentavam o campo de futebol.

O amor de William por esse esporte ficava evidente na sua dedicação em organizar o futebol para a garotada aos domingos de manhã. Selecionava os meninos pela intuição e formava times competitivos para disputarem partidas e torneios internos. Pipocaram talentos desta arena, como Vidalzinho Sion, Emílio “Maloca”, Edmir Cabachi – o Miro, entre tantos outros garotos que expressavam imenso orgulho ao vestir a camisa com o escudo do clube.

Lembro que eu e minhas queridas amigas Maria Helena, Arlene e Magali, adorávamos assistir aquela celebração de amizade que envolvia a garotada. E principalmente, de acompanhar algumas peculiaridades que envolviam essas manhãs esportivas.

William organizada de forma equilibrada os times que participavam de torneios internos. Elegia os capitães de cada time, que também recebiam a responsabilidade de serem técnicos de equipes mirins, que também disputavam campeonato à parte. Tal responsabilidade desde cedo lapidava nesses meninos o senso de liderança, empatia e laços, que se estendiam aos menores em idade.

Como o pequeno Wellton, irmão do menino Wallace, sobrinhos de William. Wellton tinha um olhar especial, de admiração ao irmão e contemplação ao tio. Seu jeito, impulsionado pela ansiedade de iniciar as partidas, e por vezes conseguir jogar ao lado do irmão, eram traduzidos pela alegria e intensidade que se entregava a esses momentos. Para deleite do tio William e diversão da querida Arlene.

William Paiva Martins entendia de motivação e de futebol com propriedade. Além de ter sido Diretor de Futebol do clube por vários anos, fez parte do temido e admirável esquadrão de futebol de salão que defendeu com esmero as cores do Clube Internacional de Regatas. O time adversário, ao ver perfilados Wallace e William Paiva Martins, Paulo Rocha Soares, Adelson, Dragança, João Osório, e Carlos Prieto Mano – o Gigi – pressentiam o destino abraçado a contínuos encontros que a bola faria às redes do gol defendido, ao longo da partida.

O fato é que estar perto desse campo de areia me resgata as ingênuas pinceladas infantis convertidas em dribles majestosos, e os arremates finalizados em gols. Quantas crianças vi crescer, assumir a juventude com o poderoso brilho nos olhos, e na fase adulta assumir o protagonismo em importantes momentos de nosso clube.

Wallace Paiva Martins Junior é um dos inúmeros exemplos com essas características natas. Autêntico Vermelhinho, praticamente nasceu no clube que tanto ama. Sua frequência se tornou quase que diária, quando a família Paiva Martins de mudou em 1969 para a Ponta da Praia, numa casa localizada na Rua Vereador Rocha e Silva. Lá, a rua viu surgir na década de setenta, o imbatível Cruzeiro da Vereador, conduzido em suas vitórias pelos meninos Marcelo Mello, Wallace, Wellton, Tatá, e Luiz Caramez, entre outros.

Por vezes, encontro o menino Wallace nas tardes de sábado, invariavelmente no local que mais preza estar quando vai ao clube: na área social, debaixo das árvores, mais perto do campo de futebol.

Em nossas saborosas conversas, relembra que ali costumava almoçar com a família aos domingos; o clube sempre repleto de sócios, onde o serviço era conduzido por altivos garçons, vestidos de paletó e gravata.

Vez ou outra relembro com ele passagens vivenciadas com sua saudosa e amada mãe, minha querida amiga Arlene André Martins. Assim como eu, Arlene adorava uma bela festa.

Como não se esbaldar nas lembranças dos mágicos e surpreendentes carnavais que o Clube Internacional realizava? Eram belos, românticos. Começavam na sexta-feira, arrastando para o ginásio animados sócios e seletos convidados.

A vizinhança da Rua Vereador Rocha e Silva comparecia em peso, e eu me juntava a eles. Nos organizávamos em disputadas mesas conjuntas, compradas com antecedência, e confraternizávamos através dos clássicos “Bandeira Branca”, “Máscara Negra” e outros, que atravessavam o salão, cantado em uníssono, todos cobertos de confetes e serpentinas.

Lembro de um carnaval que o menino Wellton criou um bloco do clube, chamado “Estopinguços”, e como a tradição mandava, o grupo visitava alegremente os outros bailes de carnaval, como o do Regatas Santista, Vasco da Gama e Saldanha da Gama.

Os carnavais no Clube Internacional de Regatas era um acontecimento que ultrapassava os limites da cidade de Santos, durante décadas reconhecido como o melhor carnaval de salão do Brasil. Lembro que a semana que antecedia o carnaval no Inter era mágica, esperada com muita ansiedade.

Muito também porque o carnaval Vermelhinho tinha o seu lado glamouroso: animados artistas do teatro e da TV costumavam comparecer no salão, conduzidos pela querida Lolita Rodrigues e seu marido, Aírton Rodrigues, sócio honorário do Clube Internacional de Regatas.

O casal era protagonista de um famoso programa de celebridades exibido na TV Tupi e, posteriormente, na TV Record, chamado “Almoço com as Estrelas”, um formato importado dos Estados Unidos e dirigido pelo brilhante diretor Cassiano Gabus Mendes. Do meio dia e meia às quatro da tarde, o programa apresentava vários artistas que iam falar de seus projetos, e shows musicais com os melhores conjuntos e cantores da época, enquanto todos literalmente almoçavam, em farto serviço de iguarias e bebidas.

Lembro de Arlene me contando sobre a ida dela e de seu marido Wallace ao programa, pois Aírton e Lolita, na época, convidaram toda a diretoria do Clube Internacional de Regatas para participarem, assunto na época muito comentado e festejado pelos sócios do clube.

Sem dúvida, todo esse frisson que envolvia os carnavais do clube era precedido por outra excepcional festa em nossas dependências: o deslumbrante Baile da Jamaica, com muita riqueza e fartura de frutas. O clube lotado, famílias inteiras felizes e sorridentes.

Certa vez, Wallace me revelou que foi ao primeiro Baile da Jamaica com sua amiga Andrea, que logo se tornaria namorada e futura esposa. Ela com quinze anos; ele, com dezesseis.

Nas década de setenta, o Clube Internacional de Regatas fervilhava, abastecido por memoráveis shows: Chico Anísio, Billy Paul – que tirou uma foto com a mãe de Wallace – Vinícius de Moares, Ney Matogrosso, Ivan Lins, Rita Lee, Boca Livre, A Cor do Som, entre tantos. Essa constelação de estrelas provocava a vinda de muitos sócios e convidados.

Outra lembranças recorrentes de nossas conversas circulava pelos espetáculos à parte que a patinação artística promovia anualmente.

Alguns deles inesquecíveis, com uma poderosa e fascinante equipe de patinadoras comandada pelo queridíssimo casal Leonor e Herbert Tort.

O saudoso Herbert Tort, uruguaio de nascimento, veio para o Brasil, se estabeleceu na cidade de Santos e implantou a Patinação Artística no Clube Internacional de Regatas.

Criou o primeiro show de patinação sobre rodas na região, o conhecido “Folias Internacionais”, sendo responsável junto com sua esposa e parceira de patinação, a querida amiga Leonor Tort, pelas coreografias e treinamento de elenco.

Além do show de patinação, Herbert Tort foi durante muitos anos professor e técnico da modalidade Figuras Obrigatórias, também promovida pelo Clube Internacional de Regatas, formando muitos patinadores, e fazendo campeões estaduais e nacionais.

Herbert tinha uma genialidade tão grandiosa quanto à sua generosidade: sempre dedicado ao esporte, sempre disposto a trocar experiências com seus colegas de modalidade.

Famosas também eram as festas juninas do clube e suas memoráveis danças de quadrilha. Lembro de uma delas, onde o menino Wallace, em sua adolescência, foi o pai da noiva. Já na fase adulta, na gestão de José Augusto Cintra Mathias em que ele era presidente do Conselho e Vidal Sion Neto era vice de Cintra, Wallace foi o padre da quadrilha, tomando emprestada a batina do querido Padre Xaxá, da Paróquia do Carmo. Como alguns amigos comentaram na época, a quermesse foi um sucesso, contando com a benção da batina do padre.

Com tantos eventos prestigiando os sócios ano após ano, somente o Clube Internacional de Regatas para tornar um deles parte de sua existência, como se de sua topografia fosse um acidente natural. Falo do Senadinho, um evento que acontece há décadas, toda a sexta-feira, faça chuva ou céu estrelado.

Originalmente, o vocábulo Senadinho é designado ao espaço das mesas em frente ao bar, e onde o pessoal costumava fazer política do clube. Tempos depois, o Senadinho foi deslocado para o deck da piscina, onde então passou a ter música.

No começo não eram bandas contratadas. Eram os próprios sócios, um grupo de médicos que se reunia ali. Lembro que o menino Wallace chegou a cantar em alguns desses Senadinhos.

Tempos depois, essas reuniões musicais evoluíram para a contratação de grupos musicais, cantores e bandas. Talvez o Clube Internacional de Regatas seja o único clube do Brasil a ter esse tipo de evento, de forma regular, a ponto do Senadinho fazer parte da tradição de eventos na região. Tanta tradição nas sextas musicais que abre exceções: na Semana Santa, por exemplo, o Senadinho acontece de quinta-feira.

Além dessas passagens divertidas e inesquecíveis, entre uma conversa e outra, o menino Wallace trazia à luz memórias dos eventos realizados nas noites de domingo, quando o espaço da boate se transformava em discoteca: falo do lendário Chuá Mirim, que reunia todos os adolescentes sócios do clube e seus convidados. A batida eletrizante das músicas, embaladas pelo groove do baixo, agitavam as danças coreografadas e sincronizadas na pista por enormes grupos de jovens.

Havia, sim, uma rápida pausa, quase no final do evento, quando a maioria dos adolescentes e jovens corriam para a sala de TV e, disputando os lugares na poltrona e o espaço para se encostarem nas paredes, se espremiam para assistir aos gols da rodada, exibidos pelo  programa “Fantástico”, da Rede Globo, além de uma animada zebrinha anunciando os resultados da loteria esportiva; e a crônica de encerramento do programa, apresentada por Chico Anísio que, vestido de smoking, desfilava seus personagens cômicos, como Azambuja, Pantaleão, Linguiça, entre outros, em meio a estórias engraçadíssimas.

Wallace, como ele mesmo disse em um de nossas conversas, nunca foi um atleta de se esforçar, sempre preferiu o esporte como uma forma de divertimento. E eu, sincera como sou, lhe devolvia ressaltando que, diferentemente do seu lado esportivo, sempre foi um bom dirigente.

 

Iniciou seu envolvimento com a política clubística ao se tornar conselheiro do clube, por volta de 1994, sempre refletindo e discutindo assuntos fundamentais para a boa gestão do clube: normas de proibição de nepotismo, de transparência de gestão e fiscal, de proteção a dados sensíveis dos sócios – muito antes de surgir a LGPD -, normas de racionalização de procedimentos, entre outras relacionadas às temáticas éticas e legais. Todas elas construídas a partir da conjunção de pessoas que tinham a mesma ou semelhante visão.

Papai, em conversas com amigos, dizia que a política sempre foi muito disputada no clube. Eram levadas à sério, e muitas delas tiveram carro de som na porta do clube, todo mundo de camiseta, todo mundo participando.

Lembro que quando o Ronald Monteiro e o Ivanóe voltaram e assumiram uma posição de protagonismo da política de gestão do clube, Wallace chegou a ser uma dissidência, mas logo depois restabeleceu essa união com a querida dupla. Hoje em dia, entendo ser algo mais pacífico esse cenário, mais tranquilo. Tem disputa, mas é algo mais brando.

Na época da Presidência do Conselho, Wallace sempre propunha inserir na composição da chapa sócios com voz dissonante em relação à própria chapa, para não ficar algo monolítico e uniforme, pois defendia o debate como fator enriquecedor.

Hoje o clube vive uma estabilidade na governança, uma coesão na ótica de condução do clube, através de um sistema que foi instalado e que continua dando fluxo

Wallace foi presidente do Conselho por doze anos, com seis mandatos. Nesse tempo, o clube teve por vezes instabilidade política e, em outras,  instabilidade econômica. Mas sempre se manteve, porque o Clube Internacional de Regatas é pulsante, vai se adaptando às modernidades, não com a velocidade que às vezes é necessária, mas forte o suficiente para realizar essa travessia em meio à mudanças cada vez mais curtas e disruptivas.

Em sua essência, o Clube Internacional é balizado por hercúleas pilastras, construídas por sócios comprometidos, autênticos Vermelhinhos, que reconhecem o clube como sua família e parte intrínseca de suas vidas.

Como o menino Wallace, filho de minha querida e saudosa Arlene: sempre movido pela retidão de propósitos e de caráter; sempre conduzido pelo olhar puro, resguardando em sua memória afetiva os tempos de infância e adolescência, onde cada Festa sempre será uma Vida.

Saudações Vermelhinhas!

(Esta crônica é uma homenagem à família Vermelhinha Paiva Martins)